Mulheres!
Carta-convite do mês de março do blog Sublimação
Mulheres!
Em março comemora-se (?) o Dia Internacional da Mulher — e a interrogação tem seu sentido. Datas que reforçam questões identitárias são sempre questionadas, seja pela pertinência, seja pelo eventual desvirtuamento de sua existência.
A discussão sobre a origem da data já reforça sua necessidade e importância. Historicamente, está associada à luta operária, às reivindicações políticas — em um período em que se lutava pelo direito ao voto — e às questões de guerra e paz, fome e pão. Não era uma celebração centrada na “natureza feminina”.
Objetivamente, o dia pode funcionar como um demonstrativo da multiplicidade do papel feminino, dando visibilidade e amplificando a pauta das mulheres em um mundo estruturalmente masculino. Entretanto, também pode desvirtuar-se e tornar-se mais uma data comercial, aumentando a venda de flores, chocolates e mensagens vazias.
No último século, além do — aos olhos do universo masculino — invisibilizado/desmentido trabalho doméstico, as mulheres passaram a ocupar múltiplas funções no mercado de trabalho e, nas novas gerações, tornaram-se maioria em várias áreas. Ainda assim, persiste o gargalo para funções de poder — políticas, acadêmicas e empresariais. Por exemplo: hoje são maioria entre as aprovadas iniciais em concursos da magistratura, mas enfrentam bancas formadas majoritariamente por homens.
Contudo, todas essas questões tornam-se pequenas diante da onda de feminicídios que atravessa nossa sociedade — aqui pouco importa se se trata de aumento real ou maior visibilidade.
O olhar psicanalítico tem muito a contribuir nesse debate: no lugar insaturado de quem segue perguntando; na denúncia de recalcados históricos; na reflexão sobre as condensações de conflitos sociais; no cuidado para que a data não se transforme em catarse controlada a serviço de um pacto narcísico masculino; na consideração do impacto da predominância feminina no atual universo psicanalítico; ou, simplesmente, na retomada da pergunta freudiana: afinal, o que quer uma mulher? Algo que a poeta Wisława Szymborska tangencia em seu poema A mulher de Ló*.
Esta carta-convite não pretende encerrar ou delimitar as propostas de escrita. É um estímulo à abertura do tema. Afinal, como disse Gilda (Rita Hayworth), no filme homônimo: “Se eu fosse uma fazenda, não teria cerca.”
Estão todas(os) convidadas(os) a contribuir com uma imersão em L’Origine du monde, de Gustave Courbet (1866), obra que expôs algo no limite entre o erótico e o censurado — hoje visível na entrada do Musée d’Orsay, mas durante anos escondida na casa de campo de Lacan. Ainda hoje suscita inquietações sobre a pertinência de seu uso como imagem de divulgação: estaria no limite entre a arcaica objetificação do corpo feminino e a exposição simbólica da fertilidade criativa?
P.S. Propositalmente não submeti esta carta-convite ao chamado “Universo Feminino” que faz a curadoria do blog. Preferi que ela pudesse ser interrogada por um olhar feminino, em vez de se blindar em um escudo protetor. Trata-se de uma atuação deliberadamente provocativa que, não raro, encena a suposta abertura do masculino — aquele que fantasia saber o que afinal querem as mulheres e que interroga quando, na verdade, busca apenas respostas apaziguadoras.
Hemerson Ari Mendes, Psicanalista SPPEL/FEBRAPSI/IPA
*A mulher de Lot
Dizem que olhei para trás de curiosa.
Mas quem sabe eu também tinha outras razões.
Olhei para trás de pena pela tigela de prata.
Por distração — amarrando a tira da sandália.
Para não olhar mais para a nuca virtuosa
do meu marido Lot.
Pela súbita certeza de que se eu morresse
ele nem diminuiria o passo.
Pela desobediência dos mansos.
Alerta à perseguição.
Afetada pelo silêncio, na esperança de Deus ter mudado de ideia.
Nossas duas filhas já sumiam para lá do cimo do morro.
Senti em mim a velhice. O afastamento.
A futilidade da errância. Sonolência.
Olhei para trás enquanto punha a trouxa no chão.
Olhei para trás por receio de onde pisar.
No meu caminho surgiram serpentes,
aranhas, ratos silvestres e filhotes de abutres.
Já não eram bons nem maus — simplesmente tudo que vivia
serpenteava ou pulava em pânico consorte.
Olhei para trás de solidão.
De vergonha de fugir às escondidas.
De vontade de gritar, de voltar.
Ou foi só quando um vento bateu,
despenteou meu cabelo e levantou meu vestido.
Tive a impressão de que me viam dos muros de Sodoma
e caíam na risada, uma vez, outra vez.
Olhei para trás de raiva.
Para me saciar de sua enorme ruína.
Olhei para trás por todas as razões mencionadas acima.
Olhei para trás sem querer.
Foi somente uma rocha que virou, roncando sob meus pés.
Foi uma fenda que de súbito me podou o passo.
Na beira trotava um hamster apoiado nas duas patas.
E foi então que ambos olhamos para trás.
Não, não. Eu continuava correndo,
me arrastava e levantava,
enquanto a escuridão não caiu do céu
e com ela o cascalho ardente e as aves mortas.
Sem poder respirar, rodopiei várias vezes.
Se alguém me visse, por certo acharia que eu dançava.
É concebível que meus olhos estivessem abertos.
É possível que ao cair meu rosto fitasse a cidade.
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