Janeiro Branco: o papel da psicanálise na educação para a saúde
O Janeiro Branco vem na esteira de outras campanhas voltadas à promoção da saúde, à prevenção e ao tratamento de diferentes condições clínicas, como o Setembro Amarelo, o Outubro Rosa e o Novembro Azul. Todas elas buscam romper o silêncio em torno de temas atravessados por tabus, medos e estigmas. O Janeiro Branco, em particular, tem como objetivo primordial promover a saúde mental como parte inseparável da saúde integral, além de reduzir o estigma relacionado ao sofrimento psíquico e aos transtornos mentais.
Sabemos o quanto as doenças emocionais ainda são moralizadas: frequentemente associadas à fraqueza, a supostas falhas de caráter, à preguiça ou à “sem-vergonhice”, entre tantos outros rótulos pejorativos. A dificuldade de compreender a complexidade da mente humana — simultaneamente consequência e causa do funcionamento cerebral — faz com que a busca por reconhecimento, cuidado e escuta seja, muitas vezes, ignorada ou desqualificada.
Tanto as causas dos problemas emocionais quanto suas formas de intervenção precisam considerar, de maneira integrada, as dimensões biológica, psíquica e sociocultural. A psicanálise se insere nesse campo ao articular essas dimensões em modelos que descrevem o funcionamento da vida psíquica. De forma simplificada, ela propõe que nossa mente opera em diferentes níveis de consciência — consciente, pré-consciente e inconsciente — e é atravessada por forças e conflitos que envolvem desejos, normas internas e a realidade vivida.
Nas últimas décadas, observa-se um crescimento expressivo dos diagnósticos psiquiátricos e de seu impacto no sofrimento individual, familiar e social. Eles já figuram entre as principais causas de afastamentos do trabalho, gerando prejuízos econômicos e conflitos institucionais — uma dimensão frequentemente valorizada em uma sociedade que mede o valor das pessoas pelo quanto produzem. No entanto, há um fenômeno ainda mais silencioso e, por vezes, mais grave: o presenteísmo.
No presenteísmo, a pessoa permanece fisicamente presente no trabalho, apesar de estar emocionalmente adoecida, com seu desempenho e sua vitalidade significativamente reduzidos. Trata-se de um funcionamento menos visível do que a ausência, mas que pode produzir prejuízos mais duradouros. Nesses casos, a aparência de produtividade muitas vezes encobre um profundo esvaziamento do viver.
Enquanto o absenteísmo, em alguma medida, permite soluções formais — como afastamentos, aposentadorias ou mudanças de função —, o presenteísmo não encontra respostas simples. Por isso, ele exige um olhar mais sensível e intervenções voltadas à prevenção, ao reconhecimento precoce do sofrimento e ao cuidado psíquico, sem julgamentos morais.
Essas mesmas questões, observadas no campo do trabalho, também atravessam os processos de educação e desenvolvimento de crianças e jovens, nos quais o sofrimento emocional pode se manifestar de formas sutis, nem sempre reconhecidas como pedidos de ajuda.
A psicanálise oferece uma contribuição importante ao propor que a distinção entre saúde e adoecimento não se dá de forma absoluta, como um “tudo ou nada”, mas sim por graus de intensidade. Em vez do “ser ou não ser”, trata-se do “estar ou não estar”. Todos atravessamos períodos de maior ou menor sofrimento; todos, em algum momento, somos visitados por angústias, fantasias e medos. Não se trata de algo bom ou ruim em si — trata-se da condição humana.
Paradoxalmente, é justamente quando reconhecemos essas experiências em nós mesmos que podemos desenvolver maior empatia pelo sofrimento do outro. Isso nos permite oferecer escuta, acolhimento e encaminhamentos adequados, sem que o sofrimento seja vivido como uma falha moral ou uma desqualificação social.
Nossa sociedade precisa avançar na compreensão das diferenças individuais e culturais e de seu impacto sobre a saúde mental, sempre indissociável da saúde geral. Nesse sentido, a psicanálise, com seu olhar biopsicossocial sobre as representações mentais, pode funcionar como uma ponte, ajudando a nomear, integrar e elaborar aspectos da experiência humana que muitas vezes permanecem isolados, distorcidos ou sem palavras.
A psicanálise também pode contribuir na integração de equipes que atuam em contextos clínicos, institucionais e educacionais, favorecendo processos continuados de educação em saúde. Além disso, pode auxiliar na identificação precoce do sofrimento que leva, sem juízo de valor, tanto ao absenteísmo quanto ao presenteísmo — não apenas no trabalho, mas na própria capacidade de viver de forma mais plena as diferentes potencialidades psíquicas.
Por fim, é importante ressaltar que campanhas de sensibilização como o Janeiro Branco não devem se restringir ao mês em que ocorrem. Caso contrário, corre-se o risco de produzir uma nova forma de dissociação — semelhante àquela historicamente estabelecida entre mente e corpo, saúde e doença, presença e ausência — esvaziando seu potencial transformador e preventivo.
Hemerson Ari Mendes
Psicanalista – SPPEL / FEBRAPSI / IPA
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