O Psicanalista e seu ofício – Hemerson Ari Mendes

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O Psicanalista e seu ofício
Publicado por Hemerson Ari Mendes
Em seis de maio, data do nascimento de Sigmund Freud, comemora-se o dia do psicanalista.
Ao longo da vida, Freud nutriu-se da produção de vários escritores, dos bíblicos aos mitológicos, de Shakespeare ao popular Hoffmann e assim por diante. “A interpretação dos sonhos” foi um dos momentos fundantes da Psicanálise. No livro, Freud faz referência a José do Egito, o primeiro interpretador de sonhos da cultura ocidental.
A (hi)estória de José poderia ser pensada como um paradigma de algumas características do processo de formação e exercício do ofício de psicanalista.
Antes de ser chamado para interpretar os sonhos do Faraó, ele demonstrou potencialidades para a função, o mesmo ocorrendo depois.
Assim como José, um psicanalista precisa sobrevier aos ataques dos demais, mesmo quando estes vêm dos irmãos das neurociências, da psicologia cognitiva e comportamental (…). Também dos ataques que surgem no processo de uma análise; muitas vezes, o analista precisa sobreviver aos dirigidos aos pais, irmãos, filhos, amantes, patrões (…); todos papéis que ele desempenha no cenário transferencial.
O trabalho é árduo, abstinente – quase escravo, como ele no Egito -, em culturas, muitas vezes, diferentes da sua. Os psicanalistas não podem cair na cantada fácil de prazeres com conotação incestuosa, mesmo que sofram retaliações – a esposa de Potifar bem que poderia chamar-se Bertha – ou Anna O. Psicanalistas precisam estar preparados para dar notícias/interpretações boas (libertadoras) e difíceis (sobre a morte). José foi lembrado, não porque fez boas previsões, mas, sim, porque fez interpretações corretas.
Os psicanalistas precisam estar preparados para anunciar e estimular a criação da fartura (esperança/vida/criatividade); mas, também, a enfrentar a prolongada penúria (seca/esterilidade). Precisam educar, mesmo que esta seja uma missão impossível – como ensinou Freud-, além de incompatível com analisar; esse é só mais um paradoxo do ofício. Precisam perdoar, sem serem pusilânimes. Precisam acolher os perseguidores, porque água/comida não se nega nem para inimigos e muito menos para irmãos, que como escreveu Pitigrilli, são mais que inimigos.
Precisam preparar-se para ser pais dos pais, quando estes precisarem. José fez/foi tudo isso. Foi um precursor dos interpretadores de sonhos, pretensiosos analistas, que mesmo sabendo das dificuldades, não desistem de exercer essa função impossível.
Na nossa província, o popular Gonzaguinha, com a sua “O que é, o que é?”, também ajuda a pensar essa função impossível que é psicanalisar. Acredito que Freud validaria a ideia de que um psicanalista precisa perguntar sobre o que é vida; mas, também, term que ir além da organicidade da batida de um coração, ele tem que interessar-se sobre as ilusões, as maravilhas, o sofrimento, a alegria e os lamentos.
Ele precisa ter a dimensão que a vida pode ser só um tempo, um sopro de um segundo, mas existe a eternidade na mente de quem está vivendo este segundo. Tem que se ocupar da luta e do prazer, do viver e do morrer, do amar e do sofrer. Tem que ter o desejo pela vida com saúde e sorte, no combate contra a morte. E, fundamentalmente, não deve esquecer a pureza das respostas das crianças, que sempre estão presentes nos adultos. E, sim, precisa ver beleza em ser um eterno aprendiz. (Dispensei as inúmeras aspas nas referências à letra)
Ortopedistas da alma, cirurgiões extirpadores de angústias, porteiros dos desejos, advogados de defesa, gurus, videntes, psiquiatras alquimistas, juízes (…) são algumas das funções/expectativas que esperam/atribuem dos/aos analistas.
Não!
Sim, mas o que esperar?
Talvez, principalmente, o que se leva e não se sabe.