DIZER É ESTAR NO MUNDO: “eu só consigo existir graças às palavras”
(Texto inspirado na apresentação da autora no atividade do projeto Literatura ↔️ Psicanálise: um intercurso de sentidos,
dedicada a O céu da língua, de Gregório Duvivier)
Quando a obra em questão se intitula “o céu de Língua", autoriza-nos a associar prazer (“estar no céu") ao manejo de palavras em prol de dar vazão ao que sentimos e desejamos – e que às vezes não cabem nos verbetes entre os quais circulamos.
O texto de Duvivier mobiliza conceitos basilares de Linguística – como arbitrariedade e signo (SAUSSURE, 2006) – para estabelecer com o espectador um acordo que permite que (pelo menos durante o tempo do espetáculo/leitura) convenções sejam preteridas para que a liberdade das metáforas deem o tom à comunicação e, ao fazêlo, desprende-nos de concretude do dito, do denotativo, e nos dá asas para alçar aos devaneios e possibilidades do simbólico: “ele enxergou o abismo da existência, e precisa de alguma metáfora” (p. 5-6).
Outro recurso com o qual somos presenteados pelo texto é a carnavalização (BAKHTIN, 1987) que, desde a Semana de Arte Moderna e o Tropicalismo, valida o riso com expediente restaurador, que desafia a ordem posta e premia os ditos incautos, os esquisitos e os degenerados quando elogia o nonsense e zomba da erudição vazia (RABELAIS, 2021).
Por se tratar de um texto que não pretende se constituir como "fechado”, “completo”, há em sua gênese lacunas para que o interlocutor inteire com suas vivências e concepções para, a partir disso, dialogar com a obra tendo a própria experiência como ponto de partida. Isso propicia que leitores com idades e backgrounds linguísticos e culturais diversos estejam convidados a “ler” o espetáculo pelos vieses que lhes são próprios, nos termos da noção de estética da recepção (HAUSER, 2000).
Por fim, do percurso de leitura que se constrói em torno da ideia de que “eu só consigo existir graças às palavras" (p. 25), pode-se depreender a incitação à reflexão sobre nossa própria existência: do lado de quem eu existo? para validar o que eu existo?. Afinal, “é falar sobre a vida que faz ela valer a pena” (p. 14).
Ana Claudia Pereira de Almeida
Linguista
Doutora em Letras
Professora Titular do IFRS - Campus Rio Grande
Referências
BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. São Paulo: Hucitec / Editora UnB, 1987.
DUVIVIER, Gregorio. O céu da língua. Padrok, 2023.
HAUSER, Arnold. História social da arte e da literatura. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
RABELAIS, François. Gargântua e Pantagruel. São Paulo: Editora 34, 2021.
SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de linguística geral. São Paulo: Cultrix, 2006.
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