É preciso pôr-se em paz com as palavras

(Adaptação do texto da apresentação na atividade "De Pina Bausch a Marco Lapolli Ayala: a dança entre a expressão e o indizível")

Desde muito cedo, dançar teve uma função estruturante para mim. Compreender isto, contudo, foi um evento mais tardio. Como ouvi alguém dizer, sobre a música, diria que a dança muitas vezes me serviu de “bálsamo e, ao mesmo tempo, confirmação”. Não se tratava necessariamente de arte e nem de talento; tratava-se de viver e de encontrar alguma linguagem alternativa, junto a outras pessoas com procuras semelhantes.

Na medida em que aprofundava meus estudos em psicanálise, percebia certa evitação quanto ao tema do corpo, o que me causava incômodo porque, na minha experiência pessoal, entendia que o universo da psique era mais amplo do que o “recalcado” dos textos pioneiros de Freud.

Ao mesmo tempo, encontrava o movimento integrando a essência de um conceito primordial da teoria. A pulsão, força vinda do corpo, transpunha o “território-limite”, como o designou Green , inacessível aos paradigmas científicos disponíveis, criava o psíquico e incitava-nos a explorar novos horizontes.

No ano de 2016, a FEPAL propôs “Cuerpo” como tema do 31º Congresso Latino-Americano de Psicanálise em Cartagena das Índias, e eu levei para o pré-congresso dos candidatos um texto do ano anterior sobre a pulsão e aquele incômodo. O trabalho iniciava com a citação de Pina Bausch: “Não estou interessada em como as pessoas se movem, mas no que as move”.

Pina Bausch , cuja arte alcançou com precisão o universo das emoções humanas, tinha uma espécie de laboratório em que propunha perguntas em aberto: um método experimental cuidadoso, em que alertava para que os sentimentos, preciosos que eram, não fossem expressos apressadamente em palavras, sob pena de desaparecerem ou se tornarem banais. “É preciso pôr-se em paz com as palavras”, dizia.  

Naquele congresso, René Roussillon foi convidado especial, e sua obra vinha oferecendo instrumentos para pensar as experiências corporais primitivas, os afetos não representados e as formas não verbais de comunicação. Aprofundando o tema da simbolização primária, descreveu esses processos em que inscrições e traços perceptivos seriam transformados ou, melhor dizendo, apropriados subjetivamente.

“Quando adolescente, enfrentava algumas questões difíceis: tinha crescido muito depressa, não me sentia muito bem comigo mesmo e comecei a ler livros sobre psicanálise. Depois, vivi um momento muito complicado com meu pai, que me disse pra eu ir embora de casa. Eu me dedicava muito à dança e saía muito, e isto não lhe agradava em absoluto. [...] Tinha dezoito ou dezenove anos quando iniciei minha análise. Na verdade, a situação real me colocou diante da escolha de dar a volta ao mundo para dançar — o que fez uma parte dos meus amigos — ou então ocupar um lugar no divã para começar um tratamento. Escolhi o divã, enquanto os amigos com quem eu dançava partiam com grandes troupes: Béjart, Béji, todos os grandes. Eu sempre tive uma relação muito forte com o corpo, o ritmo, a dança e, em toda a minha trajetória psicanalítica, esta relação está presente.”  (trecho da entrevista de René Roussillon à Revista da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre, 2009)  

Winnicott, voltando-se para os estágios mais iniciais do psiquismo, chama a atenção para um momento em que, a partir do que chama de elaboração imaginativa das funções corporais, o ser sabe-se vivo. Antes do desejo, antes mesmo de saber quem se é, é preciso sentir-se num estado chamado por ele de “continuidade do ser”. Esta aquisição, espécie de consciência sensorial, é um pré-requisito para uma vida com sentido. Integrar experiências sensoriais, sentindo-se habitante do próprio corpo, são aquisições muito precoces e, penso, necessidades permanentes. Se parte de nossa mente precisar diferenciar-se precocemente para cuidar de sobreviver, ficará privada de sua autenticidade e de seu potencial criativo. Ele diz: “Quando a cabeça é o lugar onde se vive, a vida inteira pode parecer falsa”.

Provavelmente, se você perguntar a um bailarino do que ele precisa para sentir-se vivo, a resposta será: “Da dança!”. Para ele, a noção de que sentir-se habitante do próprio corpo é o estado necessário para que encontre seu movimento autêntico e seu potencial criativo é óbvia.

Ogden (1996) propõe que “continuar a ser” é a subjetividade específica de um dos modos de viver do ser humano. No sentido de ampliar o conceito de posições para incluir aspectos mais primitivos da experiência, ele sugere uma dimensão predominantemente sensorial, pré-simbólica, existente em todos nós, complementar às posições esquizo-paranóide e depressiva. Descreve uma organização psicológica “capaz de gerar o estado mais primitivo do ser” e chama-a de posição autística-contígua. Ela surge das relações de contiguidade sensorial, “um modo específico de atribuir sentido à experiência, na qual os dados sensoriais brutos são ordenados para formar conexões pré-simbólicas”. São maneiras de sentir que, mais tarde, no desenvolvimento, poderiam ser traduzidas em palavras como conforto, alívio, segurança e proteção.  

Para mim faz sentido pensar que a linguagem mais inicial da mente humana se dê no gerúndio: tocando, rolando, sugando, cheirando , caindo, aquecendo.. Enfim, dançando. Mas não é preciso ser um bailarino para saber, e falo de um saber encarnado, que a comunicação humana conta com o corpo , seu gesto e expressão, para seu colorido afetivo e sensorial. Tampouco discordaríamos de Pina Bausch quando diz que há instantes em que perdemos totalmente a fala, ficamos pasmos, perplexos, sem saber para onde ir. Para Pina, “onde cessam as palavras, é  aí que começa a dança”. São admiráveis os que, como ela, nos oferecem alternativas de linguagem para as experiências indizíveis da vida.  

Julia Trevisan 

Psicanalista (SPPA/FEBRAPSI/IPA) e médica psiquiatra

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