Manifesto da Comissão de Crianças e Adolescentes da FEPAL sobre o ocorrido com crianças e jovens na fronteira dos Estados Unidos em Junho deste ano.

A barbárie em liberdade, as crianças atrás das grades
Primeiro com assombro, depois com angustia nauseante, testemunhamos o infanticídio psicológico perpetrado nos Estados Unidos contra crianças e adolescentes que foram separados a força de seus familiares na fronteira entre México e estados Unidos, sendo confinados em albergues que poderíamos chamar de prisões modernas.
Com enorme desprezo pela enorme quantidade de tratados internacionais e (de) acordos de proteção à infância, o governo dos Estados Unidos separou os menores imigrantes não documentados legalmente de suas famílias, reduzindo-os à categoria de objetos.
Este tratamento desubjetivante, que nega toda humanidade e dispensa os direitos que os assistem, está sendo perpetrado contra refugiados e imigrantes de diferentes partes do mundo, contudo, o governo de Trump redobra a aposta de crueldade e barbárie contemporânea ao separar as crianças mexicanas de seus pais, confinando-os em um amontoamento indiferenciado.
Os danos que foram provocados são terríveis e em muitos casos, seguramente, irreversíveis.
Os efeitos devastadores no desenvolvimento infantil destas separações e deprivações tem sido estudadas e enumeradas por muitos psicanalistas, como Winnicott, Bolwby entre outros. Os danos são psicológicos e físicos, as paradas no desenvolvimento, por fim, serão pagas pelo corpo infantil que estava em crescimento.
Neste tempo de reinado de uma economia neoliberal, a exclusão e a marginalização são ditadas por um racismo militante. O racismo, diz Cornelius Catoriadis, em Semelhante ou Inimigo?, “trata da incapacidade de constituir-se como sujeito sem excluir o outro”.
É urgente a restituição dessas crianças e jovens a suas famílias, mas esse ato não desfaz o dano provocado. Como essas crianças voltarão desse inferno? “A experiência do espanto, disse MarceloViñar, não gera aprendizado nem experiência, mas um vazio representacional”.
Sem dúvida, será necessário que eles sejam ajudados, o que não apaga o fato de que o laço social é que está doente e não as vítimas.
Mesmo quando soa como utopia, sustentar a palavra, levantar a voz da demanda forçada, contrapor o sujeito ético ao sujeito disciplinado, como Silvia Bleichmar sustentou, é uma das contribuições que os psicanalistas podem dar à interminável e implacável luta pela pluralidade e a tolerância da diversidade.
Através destas palavras manifestamos nosso repúdio a estes ataques desmedidos perpetrados contra crianças e adolescentes.
Mônica Santolalla
Diretora de infância e adolescência de Fepal
Comissão de infância e adolescência de Fepal: Elisabeth Cimenti, Anália Wald, Hilda Botero, Ana Velia Velez, Valéria Silveira, Solangel Suarez, Carmen Zelaya, Marcela Ouro Preto.

Deixe uma resposta